Ano Novo de Novo!

Feliz Ano Novo!

Não apenas porque é meu primeiro post do ano. É porque hoje começa mais uma etapa da minha vida de um ciclo que se inicia. Nas comemorações do meu aniversário, deixo abaixo a entrevista que cedi para Marcelo Paschoalin, autor do livro que eu ilustrei da Editora Letra Impressa, intitulado Ancient Worlds: Atisi.

Originalmente publicada no site: http://letraimpressa.com.br/index.php/2019/02/15/entrevista-com-paloma-diniz/

Boa Leitura!

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Desenho eu que fiz para a representação da tribo Mungo. Inserida na página 23 do livro de RPG Ancient Worlds: Atisi

Hoje apresentamos uma entrevista com a ilustradora Paloma Diniz, que trabalhou conosco no Ancient Worlds: Atisi. Quer saber mais sobre essa talentosa artista? Confira!

Olá, Paloma, e seja bem-vinda! Você é a artista por trás das imagens que enobreceram o Ancient Worlds: Atisi e sua versão nacional Mundos Antigos: Atisi, então conhecemos seu traço. Mas quem é você? O que pode falar de si mesma para a gente?
Sintetizando numa frase: eu sou desenhista. Com muita alegria e orgulho. Dediquei-me e me dedico a praticar, estudar e trabalhar com desenho. Sou formada em Artes Visuais (Licenciatura habilitação artes plásticas na UFPB em 2007. Especializei-me em desenho artístico, animação 2D, maquetes eletrônicas em 3D, e atualmente eu estou estudando desenho clássico no curso de extensão do Laboratório de Desenho na UFPB. Há 12 anos estou passeando pelas ‘pradarias do desenho’ e decidi ficar no mercado de ilustração para livros, revistas e periódicos, e o de história em quadrinhos (minha paixão).

Como costuma ser seu processo criativo? Há alguma rotina de trabalho?
Sim, eu tenho uma rotina porque ser desenhista é ser um prestador de serviço; semelhante aos arquitetos, eletricistas, pedreiro, encanador… Tem que ter disciplina, ritmo de produção e qualidade com produtividade.
Quando alguém entra em contato comigo pra me contratar pra desenhar, primeiramente, eu dou total atenção ao pedido do cliente. Pra poder dizer “sim” ou “não”. Lembre-mo-nos: prestador de serviço tem que ter Q.I. Neste caso Q.I. significa “Quem Indica” e ninguém vai indicar alguém que não cumpre os prazos, que promete e não honra sua palavra. Então, eu vejo o que o cliente quer e digo se posso fazer o que ele deseja no meu estilo e técnicas de desenho e se no meu cronograma tem condições de eu atender o pedido no prazo que ele precisa. Dito “sim”, eu peço que o cliente me diga todas as informações necessária para a produção da sua encomenda. Com estas referências, eu vou estudar, ler, pesquisar para fomentar a criatividade na busca de idealizar e representar com meu desenho o que o cliente quer.
Quanto mais preparo de material de pesquisa e estudo eu tenho, aliado a clareza do que o cliente busca, melhor é o resultado da produção.
Geralmente eu faço uma amostra sem compromisso pra a pessoa ter uma ideia do que eu posso fazer e se realmente eu sou o desenhista que ela busca. Não sendo eu, indicarei outras pessoas; ilustradores que acredito ~talvez~ atenderá a representação visual que ele procura.
Tudo aprovado (amostra, estilo de desenho, preços e prazos para execução) eu separo os materiais que vou usar: o papel (tipo e quantidade mais adequado), lápis, pincéis, tintas e demais acessórios para a determinada encomenda. E por fim, organizo o cronograma de produção deste trabalho com os meus trabalhos e tarefas do cotidiano. Pra cumprir todos os prazos e metas.

Como foi trabalhar neste RPG? É diferente de trabalhar com outras mídias?
Foi maravilhoso! Realizei um sonho. Eu queria muito trabalha com livros de RPG. Eu joguei pouco RPG e sempre me encantava com as ilustrações dos livros de D&D, Vampiro, livros de “storyteller” em geral. Eu nunca fiz um livro de RPG e queria muito esse desafio.
Em Atisi World foi um desafio um pouco maior. Porque além de ser o 1º livro de RPG que eu ilustro, não havia feito ainda tantas ilustrações sozinha para um único livro; e eu tive que ‘mergulhar’ numa cultura ~pra mim~ pouco conhecida: a cultura africana. Um universo totalmente diferente do meu.
O rito de produção dele foi o mesmo para ilustrar um livro; mas, uma particularidade desta mídia foi criar algo totalmente novo e fantasioso e, ao mesmo tempo, com bases muito sólidas no mundo real e existente ainda hoje na cultura e geografia do Norte da África.

Como foi trabalhar com o Marcelo Paschoalin, em especial?
Também foi maravilhoso! É o que eu chamo de “cliente 5 estrelas”. São pessoas como o Marcelo que me animam a trabalhar como desenhista. Porque confia no artista, dão liberdade de criação e interpretação, tem clareza no que quer que desenhe. Honesto, sincero, fala a verdade sem ser rude ou depreciativo; humano, compreensivo, disposto a ouvir, aprender, e harmonizar situações ao longo da produção.
Tudo de bom! Quero ter a sorte de trabalhar com mais pessoas assim.

Em geral, artistas recebem uma direção de arte focada para criação, mas não é o que ocorreu com o Atisi. Como é ter essa liberdade criativa e a responsabilidade pelo que ilustrará os livros?
Apesar da liberdade de criação, Marcelo tinha em mente bem claro o que queria; ele me deu o ‘norte’ e me deixou tranquila e segura pra ‘construir a estrada’. Eu li todo o livro (na versão em inglês) e ~como já disse ~ a certeza do que ele queria me deu segurança pra desenvolver o projeto. A fui fundo nas pesquisas de tribos africanas que ainda vivem isoladas da colonização branca, e de outras cidades, assisti um seriado antigo sobre Shaka Zulu de 1986, com o maravilhoso Robert Powell, que está disponível na Netflix; e Google para as pesquisas.
Relacionado a produção de Atisi World, uma particularidade do Marcelo foi que ele não queria a estética padronizada pelo cinema e produção de TV de uma “África colonizada”. Apesar de ser um livro de fantasia, o autor buscou resgatar e representar uma África histórica, que existiu e existe, mas não é representada pelas mídias artísticas. Ainda vemos representações culturais das mais diversas sendo mostradas ao público de forma incoerente com o que foi ou o que é; esteriotipada e/ou deturpada. E o Marcelo foi bem claro nisso: queria representações de etnias negras diversas nos seus biotipos, trajes e adornos. Sem caricaturas, chacotas ou clichês que ainda existem por aí. Todos eu desenhei com suas belezas particulares, com posturas de elegância e bem apresentados.
Eu estou muito feliz com este trabalho que fiz, de ter atingido a meta de produção geral com sucesso. E eu acredito que ~por esta abordagem visual e cultural ~ este livro de RPG fará diferença na produção do gênero D&D tanto no Brasil quanto no mundo.

Atisi é um RPG. Você costuma jogar algo? Há algum tipo de personagem favorita?
De RPG eu joguei pouco; o que joguei mesmo foi Vampiro – A Máscara e, é claro, eu era do clã Malkavian. Eu gosto mesmo de jogos de tabuleiro. 

Você tem algum mapa de influências para o seu traço? Quem são os artistas que você admira?
Muitos artistas do passado e do presente. A lista é loooonga… Vou tentar ser sucinta: artistas do comics underground como Angeli, Adão Iturrusgarai, Laerte; os norteamericanos como Crumb, Wally Wood…das HQs eróticas italianas como Crepax, Manara, Serpieri, Giovanna Cassoto; artistas franco-belgas de HQs e ilustrações como Miguelanxo Prado, Moebius, Beatrice Tilier… Das artes clássicas como Leonardo Da Vinci, do desenhos industrial como Mucha, mais contemporâneos com M. C. Escher…
Porém, 3 foram fundamentais no impulso e influência nas minhas escolhas e incentivo na decisão de ser e viver de arte, desenho e histórias em quadrinhos.
1º David Bowie; por ser um artista plurapto, ele não se limitou a ~por exemplo~ apenas cantar. Ele foi compositor, multinstrumentista, porque estudou música. Era um excelente intérprete porque estudou teatro (trabalhou como ator de teatro e cinema); produtor cultural e visual (começo fazendo eventos no bairro que cresceu) também na faculdade de artes que ele estudou mas não concluiu, ele estudou artes visuais (mas desenhava e pintava por hobby) e com este saber ele produzia toda a parte visual dos shows, videoclip, figurinos, e capas dos álbuns de seus discos. Além de ser o gerente de sua própria carreira. Então, ele me mostrou que você pode fazer, acontecer e ser o que quiser; desde que esteja disposto a aprender, ter disciplina, e ter consciência do que é capaz e dos limites.
2º Jaime Hernandez; quando eu tinha 9 pra 10 anos, eu tinha uma colega de classe na escola que gostava de desenhar e de quadrinhos como eu. O nome dela é Jaciane Alves, somos amigas até hoje (mesmo não morando na mesma cidade); ela me mostrou uma HQ que me impactou bastante: era Love and Rockets de Jaime Hernandez (ele é filho de mexicanos que nasceu e vive na Califórnia). Eu gostava de desenhar, de ler quadrinhos mas, sem grandes pretensões. E foi quando conheci o trabalho do Jaime Hernandez eu decidi: quero ser desenhista e quero trabalha com desenho e HQs. E por muito tempo meu desenho foi uma cópia mal feita do Jaime Hernandez.
3º Mike Deodato; sou suspeita pra falar dele porque hoje ele é meu sócio. E nessa convivência a admiração só cresce! Nossa parceria nasceu numa forma de sincronicidades da vida. A esposa dele – Paulinha – entrou em contato comigo porque eles tinham ideias, produções mas não tinham tempo e como desenvolvê-las e eu tinha o tempo e o conhecimento mas não tinha a produção. Uma daquelas coisas mágicas que acontece na vida que por sintonia e afinidade, somos unidos e ligados a determinadas pessoas.
Mas, bem antes disso, nos idos 1994, chegou em minhas mãos uma edição da HQ da personagem Glory (a Mulher Maravilha do Rob Liefield) publicada originalmente nos USA pela Image Comics e lançada no Brasil pela Editora Abril. A pintura digital ingressando na HQs era a novidade e atrativo; e o desenhos chamou-me a atenção. A composição das figuras bem desenhadas e disposta na narrativa, e tals…era bem diferente das coisas que eu via nas HQs. Aí, fui ler os créditos e estava lá dizendo “desenhos: Mike Deodato”. Nunca tinha visto aquele nome nos créditos de desenhos de HQs mas notei que não era um nome totalmente americano. Como uma gatinha curiosa ~disposta a queimar os bigodes no fogo da chama da vela~ fui pesquisar. Nisso eu descobri que além de brasileiro, Mike Deodato é paraibano como eu, estava trabalhando como desenhista e desenhando HQs. E eu foi aquela injeção de ânimo e esperança tipo “é possível ser desenhista e fazer quadrinhos”. Lembremo-nos que naquela época internet era algo ainda em experimentos de laboratórios de tecnologia e computador era algo caríssimo, longe do alcance dos mortais. E a missão paralelo aos estudos do colégio e do desenho era como e o que fazer pra ser uma desenhista profissional como Mike Deodato.

Algum conselho para artistas que estejam começando?
A primeira coisa que eu aconselho é pra que a pessoa, o desenhista em potencial que está entrando neste mercado, é olhar para si e se perguntar: o que eu realmente gosto e faço bem como desenhista? Porque quando te contratarem para fazer um trabalho, não importa se é dia, noite, tenha Sol ou chuva, esteja com saúde ou doença, saiba: você vai ter que fazer bem e cumprir o acordo feito com o contratante! Toda quebra de contato tem um gigantesco prejuízo (o financeiro é o menor de todos). Se você gosta de desenhar mas sente-se mais seguro e prefere colorir, invista seu tempo, estudo e prática, na pintura artística ou digital (ou em ambas). Quando se está no mercado não é pra se aventurar. Aventurar nos sentido de que vai ousar fazer algo que nunca fez antes, como experimentar um material ou técnica de desenho; porque você tem por contrato cumprir o prazo e estas ousadias podem prejudicar em todos os sentidos (cumprimento do contrato, na saúde, entre outros).
Pode ser que o que você goste de fazer artisticamente seja algo que aparentemente não tem procura. Mas saiba: existem pessoas que estejam justamente procurando o que você faz.
No meu caso, eu não tenho afinidade com pintura digital; até já fiz workshop com a Cris Peter e não me destravou (eu gosto mesmo de lápis e papel, aquarela e afins); até hoje existem incentivos, propostas e investidas de amigos e colegas pra eu ingressar no mercado de pintura digital (ou ter isso como oferta de serviços a prestar) mas eu decidi aprimorar o que eu já sei e sei que faço bem: desenho com técnicas artísticas e clássicas. E nunca faltou cliente pra mim.
Tenha sempre um portfolio on line atualizado pra apresentar e se apresentar no mercado e para as pessoas. E nele, tenha sempre seus contatos atualizados (telefones e email) e esteja também nas redes sociais; porque hoje, é através destes que você será visto e os futuros cliente o procurarão. Foi através do Facebook que eu e o Marcelo Paschoalin nos contactamos.
Se você não tem afinidade com negociações, procure uma agência. Existem várias no Brasil e no mundo. Mas busque aquelas que tem clientes que contratem artistas com seu perfil de estilo e produção. Porém, independente ou não de você querer ser seu gerente ou buscar alguém para gerencia sua carreira, aprenda sobre gestão de finanças! Aprenda a cuidar dos seus pagamentos, de ter uma arrecadação para uma independência financeira (aposentadoria e afins). Digo e repito: desenhista é prestador de serviço; se a gente trabalha, ganha; se agente não trabalha, não ganha. Ser seu próprio patrão é excelente (pelo menos pra mim) quando se tem disciplina e conhecimento de processos bancários e financeiros. Não tenha medo de mexer com dinheiro; o dinheiro não é mau. Dinheiro é uma das fontes de energia do mundo material. Como a água, a comida… Você troca a sua energia ‘trabalho’ para ter a energia ‘dinheiro’; e com esta energia ‘dinheiro’ você poderá adquirir coisas que a sua energia ‘trabalho’ não pode. Entendeu?
E sempre, sempre, sempre seja honesto, gentil e coerente com seu pensamento, palavras e atitudes. Coerente para com você mesmo e para as outras pessoas. Este estado de consciência é sublime e importantíssimo pra a vida como um todo. Inclusive ~por mais que doa~ aprenda a dizer não. É infinitamente melhor dizer ‘não’ a um cliente do que prometer e não cumprir. Também aprenda a ouvir o ‘não’ e tente entender o porquê deste ‘não’. Um dos maiores problemas do mercado nacional brasileiro é trazer coisas e colocações do âmbito profissional para o pessoal. Se o cliente não gostou do seu desenho, ele não gostou do seu desenho. Não é algo pessoal; o que você apresentou, pode não ser o que ele procura e fim. Bastará a você ouvir e aprender com a experiência (o que fazer pra melhorar e/ou modificar).
Boa reputação, bom caráter, e confiança são coisas importantíssimas nas relações sociais e na vida. E são coisas que a energia ‘dinheiro’ não compra.

Agora o espaço é livre. Fique à vontade para falar o que desejar aqui.
Quero agradecer publicamente ao Marcelo Paschoalin pela oportunidade e confiança de deixar comigo a responsabilidade de materializar o visual do mundo de Atisi. Pra mim, foi de um aprendizado impar. Além de toda as informações culturais dos estudos, foi a primeira vez que fiz mais de 100 desenhos pra um único livro (exatos 161 desenhos).
E acrescentar algumas colocações pra os profissionais ~os artistas em especial~ que esteja lendo:

Nunca ache ou se ache, acreditando que aprenderam tudo, ou sabem de mais, ou “isso já está bom”. Esse comodismo e/ou vaidade é a tragédia pra qualquer pessoa ou profissional. Estejam sempre atentos, em alerta, e informados sobre o mercado que você quer trabalhar. Quanto vale financeiramente os desenhos e seu mercado e quanto realmente vale financeiramente seus serviços inserido neste mercado que você escolheu. Informe-se e saiba negociar.
Instrumentalizem-se com ferramentas e estudos para fazer sempre um bom trabalho; não é porque é um autor e/ou editora pequena e/ou que está começando que você vai fazer algo com menor qualidade. Lembrem-se prestação de serviços é Q.I. (Quem Indica). E saibam as grandes editoras estão sempre de olho nas redes sociais e plataformas digitais de portfolios on line. Para além da proteção do patrimônio intelectual das editoras, eles estão em buscas de novos talentos. A concorrência no mercado de ilustração é desigual: ou seja, você vai disputar vagas em seleção de trabalhos e contratos com todo tipo de artista, das mais diferentes idades e qualificações profissionais. Portanto busque sempre aprender e fazer o melhor.